Estávamos a 3 de janeiro de 1946, numa pequena vila bem no centro do Vietname com um nome esquisito, quase impossível de pronunciar, os vestígios da Segunda Grande Guerra mundial ainda eram bem visíveis e os conflitos da Guerra da Indochina já se adivinhavam. Às sete e dezanove da tarde, um choro ecoa por toda a vila, Xuan nasceu.

Xuan, a mais nova de 7 irmãos passou os seus primeiros anos de vida no meio dos arrozais onde os seus pais, assim como todos os habitantes da pequena vila, trabalhavam. Em 1957, dois anos depois do início da guerra do Vietname, Xuan viu o seu pai ser morto por tropas do Vietname do Sul, ele e todos os outros camponeses acusados de pertencerem aos Viet Cong, guerrilha que lutava pelo Norte do Vietname. Depois de ser atirada ao chão por um dos militares, a sua mãe gritou a Xuan para fugir. Em lágrimas Xuan começou a correr sem parar, sem olhar para trás. À medida que os minutos foram passando, o barulho dos tiros foi ficando mais longe, os gritos que ouvia passaram a ser só na sua cabeça. Uma semana a andar sem destino tudo o que encontrou foram vilas destruídas, pessoas mortas, feridas, crianças perdidas…

Pelo caminho fez amizade com outras crianças, juntas conseguiram encontrar lugar para ficar numa vila abandonada, dividiram tarefas entre elas, umas iam procurar comida, outras vigiavam e outras cozinhavam.

Aos poucos foram chegando mais pessoas à vila e a vida foi normalizando. Aos 18 anos casa com um homem 11 anos mais velho e aos 19, quando esperava o seu primeiro filho, tudo acontece novamente como se fosse um Deja Vú. Homens mortos, algumas mulheres e crianças também, outras violadas, a vila em chamas. Ela vê a imagem da sua mãe no chão a gritar para fugir, e mais uma vez começa a correr sem parar, o barulho dos tiros voltam a ficar mais longe, o barulho dos gritos volta a ser só na sua cabeça. As memórias que ainda estavam tão presentes voltaram a ser uma realidade.

Anos mais tarde a guerra acabou e só então Xuan voltou a casar. A sua filha Ly, nascida no meio dos arbustos poucos dias depois do massacre, já tinha 13 anos e aos 19 casou e foi viver para Hanói com o marido. Xuan nunca mais soube dela. Ficou viúva aos 61 e aos 64 foi viver juntamente com outras camponesas para a periferia de Hoi An, uma pequena vila turística na costa.

Desde então e até aos dias de hoje, já com 72 anos, Xuan passa todas as noites junto ao rio a vender velas aos turistas. As velas são postas no rio e pede-se um desejo, cada vela custa 15 cêntimos.

Esta é uma história fictícia, mas podia bem ser a história desta senhora, que com 70 e tal anos de vida e depois de ter passado por muitas das guerras no seu país, tem de andar a implorar aos turistas para lhe comprarem uma vela. Vi esta senhora pela primeira vez em Novembro de 2017, agachada junto ao rio com as velas à sua frente, não tive coragem para a fotografar mas fiquei fascinado com as suas rugas. Voltei a encontra-la no mesmo local em Abril de 2018, na viagem que lidero pela The Wanderlust, e desta vez, depois de muito medir os prós e contras fui pedir se a podia fotografar. Acho que não percebeu bem porque pedi, a cada segundo paravam dezenas de turistas em frente a ela e fotografavam-na como se num zoo estivesse, sem um simples cumprimento antes de dispararem e seguirem a sua vida.

Em Novembro voltei e lá estava ela a implorar…