Este é o Girish, um rapaz indiano de 31 anos que em 2014 salvou a minha vida. Hum, talvez não tenha chegado a tanto mas, por
culpa dele em vez de odiar eu amo a Índia, muito mesmo.

Chego a Deli e sinto que deixei de ser de carne e osso. Sou agora de papel, notas de rúpias, para ser mais preciso. Todos olham para mim e só vêm rúpias, rúpias, rúpias. Pago o valor acordado ao taxista e ele pede gorjeta, entro na pensão e o miúdo que me leva ao quarto mesmo depois de eu recusar pede gorjeta, o meu quarto tem casa de banho mas não tem água, o meu quarto nunca foi limpo, o meu quarto é um viveiro de insectos.

Muitas mais coisas aconteceram nas primeiras horas em solo indiano até que a meio da tarde do dia seguinte mudei-me para a casa do Girish. Não o conhecia e pouco sabia dele, duas ou três mensagens trocadas na internet pela aplicação do couchsurfing (como poupar no alojamento em viagem, AQUI) uns dias antes foram o nosso único contacto.

– Oh Fábio, isto é a Índia. – Diz ele entre sorrisos depois de ouvir sobre as minhas primeiras experiências por lá.

Girish vem de famílias humildes, de uma casta* baixa, estudou em Goa, é farmacêutico e dá aulas. Tem a vida organizada digo eu, ele pensa o mesmo, a mãe nem por isso. Falta mulher, tem de se casar e ela faz tudo por isso, tenta arranjar casamento para ele, este vai recusando mas provavelmente vai acabar por aceitar. Na Índia a maioria dos casamentos são desta forma, arranjados pelas famílias em que muitas vezes o casal nem se conhece.

– Desculpa, não quero de todo faltar ao respeito, mas é difícil perceber como é que alguém se casa com alguém que não conhece, que não ama. – Digo sem parar de pensar no caso.

– O meu irmão teve casamento arranjado, é a nossa cultura, temos de fazer a vontade aos nossos pais. – Diz ele.

Ele é um rapaz bastante calmo e inteligente, segue a sua vida sem se chatear com nada, hoje em dia, um dos meus melhores amigos. Depois de umas horas com ele aprendi a como me mover na Índia, a negociar, a ignorar os assédios entre muitas outras coisas. A verdade é que um dia depois andava todo contente no meio da Velha Deli, a parte antiga da cidade, agora uma das minhas preferidas, local onde ele não faz questão de ir.

– Fico farto de ouvir os vendedores, os rickshaws*, a confusão, etc. Não tenho paciência para isso. – Diz a sorrir, aliás, como ele está quase sempre. A sorrir.

Entretanto Girish veio viajar pela Europa. Alemanha, Inglaterra e Polónia foram alguns dos países que conheceu.

– Senti que estava num museu, tudo tão limpo e organizado. Também achei que as pessoas andam muito stressadas, trabalham muito e têm muitos problemas. Eu gosto mais da minha vida aqui na Índia, se eu fizer o meu trabalho ninguém me chateia e fora dele eu posso simplesmente relaxar e fazer o que quero.

Diz ele depois de me hospedar novamente uns meses mais tarde. Depois disso voltei várias vezes, hoje viajo com grupos de pessoas para a Índia e em boa parte isso se deve ao Girish. Sem ele duvido que visse este país incrível da mesma forma. Admito que aquelas primeiras horas quase que me quebraram, os pedidos de gorjeta sem fazerem nada, a forma como me tentaram enganar a vender pacotes de viagens, nos transportes, a falta de respeito, a poluição, etc.

Obrigado Girish,

Um abraço!

*casta – Divisão social com grande poder na Índia.

*rickshaws – Um dos meios de transporte mais utilizados na Índia.

*Fotografia: Girish, Jardins de Lodi, Nova Deli, Fevereiro de 2017