Como quase sempre, acordo cedo para aproveitar o máximo possível, lá fora a neve brilha com o reflexo do sol. É Outubro e estou em Trondheim, Noruega.

Vou até ao posto de turismo perguntar uma opinião sobre o que devo fazer.

– O dia está muito bom, devias apanhar o elétrico e ir para as montanhas, tens um a cada hora. – Sugere a senhora enquanto me dá as indicações pelo mapa.

Segui a sugestão dela e na última estação, eu e muitos descemos do elétrico. Uns metros à frente vejo um local onde as famílias param, há trenós, comida, animais de estimação e vive-se um dia bem passado na natureza. Fico por lá durante uns minutos, a rir com as quedas que as pessoas vão dando nos trenós, antes de seguir viagem. Começo a andar, sigo algumas das indicações que vão aparecendo no caminho, o senhor do elétrico disse que se eu seguisse essas indicações ia parar ao outro lado do parque e de lá apanhava outro transporte de volta para Trondheim. Quase sempre só eu, neve, muita neve e árvores, de vez em quando passam alguns pequenos grupos ou até mesmo uma ou outra pessoa solitária a fazer cross country esqui*. Todos me cumprimentam ao passar por mim, alguns até param e ficam alguns minutos à conversa. Em alguns locais a neve chega aos joelhos, tenho boas botas, mas as calças são de ganga e neste momento parecem pedra, completamente congeladas. No meio do nada, sem ver indicações há muito tempo e onde tudo parece igual, branco, árvores e mais branco, volto para trás, sem nunca me perder, o que parece incrível! Já de noite chego ao mesmo local de onde parti, o último elétrico sai dentro de quatro minutos.

Era giro passar a noite por aqui, sozinho, ao frio, sem comida, foi por pouco!

Desço do elétrico e fico na estação de autocarros à espera deste para ir ter com Paola, uma estudante venezuelana que me hospedou na cidade universitária, pois tínhamos combinado ir jantar juntos. Não cheguei a horas! Sentado no banco da paragem a tremer, não sinto metade do corpo, as mãos nem mexem, barba grande, cabelo de guerra… Passa por mim uma senhora com a filha e ambas olham-me nos olhos, uns segundos depois, a pequena toca no meu ombro e dá-me um hambúrguer que trazia com ela. Começo então a rir e não consigo parar, depois agradeço e digo que não tenho fome. Não tinha mesmo, levo sempre comida comigo na mala e para ser sincero, o frio não me deixava sentir mais nada. Ela não percebe e continua com o hambúrguer encostado à minha cara, agarro e digo para a mãe:

– Obrigado, mas eu não tenho mesmo fome, estou é com muito frio porque passei o dia na neve e não tenho roupa apropriada.

A mãe sorri e traduz para a filha que não tem mais de quatro, cinco anos em… português! Eram brasileiras e viviam na Noruega faz muito tempo.

*Cross country esqui – É uma forma de esqui onde os esquiadores dependem apenas da sua forma de locomoção para mover-se. Seja descida, plano e mesmo subidas. Nos países nórdicos, para além de ser praticado como desporto de competição é também usado como forma de transporte para o trabalho.