Caminhar até Santigo de Compostela é uma das mais concorridas peregrinações desde a época medieval. Existem vários caminhos até Compostela, todos eles terminam na Catedral onde está o túmulo de Santiago Maior, um dos apóstolos de Jesus Cristo.

Em Setembro de 2017 fiz o “Camino del Norte”, desde Irún até Santiago de Compostela, foram pouco mais de 800 km em 28 dias, 25 dos quais a andar.

Agora decidi experimentar outro caminho, o caminho Português Central. Aproveitei o facto de estar no Porto, no casamento de duas pessoas lindas, a Júlia e o Ricardo, que se conheceram na Índia numa viagem liderada por mim na altura em que eu era líder da The Wanderlust, para andar os mais de 200 km que me levaram até Santiago.

Arranquei no domingo pela hora de almoço, não por ter bebido muito no casamento, o que também aconteceu, mas porque tinha combinado um pequeno-almoço com pessoal que viajou comigo no fim de 2017 até ao Vietname.

Menos de 10 minutos depois de ter sido deixado pela Patrícia, pela Cristina, pelo Rui e pelo Tiago no ponto de partida, a Sé do Porto, já estava perdido e assim continuei por pelo menos meia hora. O centro da cidade do Porto está em obras, por esse motivo não encontrei a seta amarela para virar à direita e como é normal em mim virei para o lado oposto!

Para ser sincero o primeiro dia foi muito mau, pelo menos depois de sair do centro da cidade. Todo o caminho foi em zona industrial, sempre pela estrada, com muito calor, ainda para mais só tinha dormido três horas e estava completamente desidratado, já para não falar que tinha bolhas nos pés. É verdade! Comprei a roupa para o casamento e deixei os sapatos para o fim, encontrei uns que adorei porque tinham as cores a combinar com a roupa.

– O 43 é o maior número que temos – disseram na loja.

Eu normalmente calço o 44, algumas marcas tem mesmo de ser o 45. Qual foi a minha resposta?!

– Ok, eu levo esses!

E pronto! Umas horas depois de os ter calçado já tinha os dedos perto dos calcanhares, com bolhas em todo o lado. Dancei um bocado com eles e o resto da noite teve de ser descalço. Os sapatos ficam para o meu sobrinho, ele tem 12 anos e calça o 43!

O segundo dia foi mais giro, comecei a andar às 6 e pouco da manhã e menos de um quilómetro depois já estava a atravessar uma ponte de pedra no meio da natureza.

Os dias foram em geral muito parecidos. Nunca comecei a andar depois das 6 e pouco, média de 35 km por dia em que normalmente parava de 10 em 10 Km. A primeira paragem era ao pequeno-almoço, a segunda só para descansar e a última para o almoço. Em todas elas tirava os sapatos, as meias e ficava um bocado com as pernas levantadas sobre a mala a descansar.

Durante o dia pouco falava com as pessoas com quem me cruzava, normalmente perguntava se estava tudo bem, sorria juntamente com o famoso “Buen Camino” e seguia a minha vida. Claro que existiram exceções como o Yope (foto de capa), um jovem Holandês de 80 anos que tinha uma energia incrível, já tinha feito este mesmo caminho no ano anterior assim como vários outros caminhos. Também Kora, uma Alemã que precisava de um tempo só para si, por isso decidiu ir fazer o caminho sozinha. Assim como Pedro e Salva, pai e filho respetivamente. O filho queria vir e o pai veio com ele. Adorava que os meus pais fossem assim, que eu quisesse ir fazer uma tatuagem ou um piercing e que eles fossem também! O meu pai com uma argola no nariz e a minha mãe com um coração no pescoço a dizer amor de filho. 😀 😀
Os meus pais são os melhores, sem dúvida, mesmo!
Gostei muito do Pedro e do Salva, especialmente porque o pai estava em sérias dificuldades mas queria mesmo acompanhar o filho.

A vida nos albergues é uma loucura, muita gente! O que mais gostei talvez tenha sido o de Pontevedra, com um serão inter-cultural (bem) regado com vinho espanhol como disse a Vanessa, ela que fazia o caminho com a Vânia e o Ivo, 3 amigos enfermeiros a trabalhar em Lisboa. Junto a nós estavam outros portugueses, espanhóis e pessoas de mais algumas nacionalidades, na minha opinião o melhor do grupo era um Mexicano de quem não me lembro o nome, mais uma vez o mais velho e o que tinha melhor energia, para além de ter uma forma de falar da vida muito bonita.

O pior dos albergues é a quantidade de pessoas a dormir no mesmo quarto, não é fácil dormir 7 noites em dormitórios com mais de 30 pessoas, o último até era de 50, em que muitas delas ressonam, outras tantas falam e acreditem ou não, outras façam sexo. Já tinha sentido os toques na minha almofada assim como alguns sons, mas a certa altura a minha cama parecia uma montanha russa, levanto a cabeça e a menos de 10 centímetros lá estavam eles a dar tudo, sem medos, tudo livre sem nada a cobrir, ele deitado e ela sentada, tive para tirar uma selfie com eles, ou até mesmo para perguntar se queriam experimentar um ménage, mas liguei só a luz do telemóvel e eles pararam, ela desceu e foi à casa de banho, 5 minutos depois ele era mais um a ressonar. (Tive de descrever para perceberem bem! É verídico! 😀 ) Num hostel é uma coisa, agora num refúgio religioso, cheio de pessoas bem mais velhas é muito hardcore!

E foi assim a caminhada desde o Porto até Santiago de Compostela! Algumas pessoas fazem a caminhada por motivos religiosos, outras pela parte cultural e gastronómica, algumas só porque sim. Eu fui mais para ver como estava o meu corpo. Está bom!!

Coisas giras vão acontecer em breve!

A pensar no nome do próximo livro.